quarta-feira, 2 de abril de 2008

O CAMPONÊS E A RAPARIGA

Era uma vez um camponês de pensamentos simples e poucas posses que se apaixonou pela rapariga mais bonita da aldeia. Ela tinha tudo o que a ele lhe faltava: graça, inteligência, popularidade, brilho, mistério. Ela era bonita, ele igual a tantos outros. Ela era alegre e divertida, ele timido e metido consigo mesmo. Ela era fogosa e provocadora, ele mais parecia uma mosca morta. Ela tinha graça quando andava, ele parecia que tinha os sapatos pequenos para os pés. Ela brilhava, ele era fosco como uma lâmpada. Ela tinha a força do sol, ele a sombra da lua. Ela não gostava de ninguém e ele gostava dela.
Um dia, junto á fonte, declarou-lhe o seu amor e ela riu-se dele. Então ajoelhou-se aos seus pés e jurou-lhe amor eterno. Ela riu-se novamente e respondeu com escárnio e desprezo: amor eterno, isso não existe. Mas ele não desisitiu. Queria amá-la para sempre e estava disposto a honrar o seu amor por ela.
Então ela olhou para ele com mais atenção e pensou que até podia amar um dia aquele homem, tão igual a tantos outros, e lançou-lhe um desafio. Durante cem dias e cem noites ficarás debaixo da minha janela á minha espera. Faça chuva ou faça sol, caia neve ou trovoada, noite e dia, dia e noite. Cem dias e cem noites. Se aguentares tanto tempo, então é porque mereces o meu amor.
O camponês regressou a casa com o coração cheio de esperança. cem dias era um preço baixo a pagar para ter a sua amada. O tempo iria voar, tinha a certeza.
No dia seguinte, fez um farnel e foi para debaixo da janela dela. esperou que ela aparecesse e acenou-lhe quando a viu espreitar por entre as frestas das portadas. O mesmo aconteceu na segunda noite. E na terceira. E na quarta. E em todas as noites que se seguiram.
Todos os dias, a qualquer hora, lá estava ele, á espera de um sinal dela, para lhe mostrar que estav ali, de pedra e cal á espera de merecer o seu amor. Acabou o Verão. Chegou o frio. Depois a chuva. Depois a neve. E o camponês sempre perfilado como um soldado na parada, á espera que ela o espreitasse pelas portadas para lhe poder mostrar que estava ali, a cumprir o seu designio, a resgatar a sua promessa.
Nunca durante todos esses dias ela abriu a janela para o saudar. Nunca lhe abriu a porta e o convidou a entrar e descansar da sua vigilia. Nunca lhe ofereceu um sorriso, uma palavra de afecto, um instante de atenção.
Mas ele continuava lá, agora já cansado, enregelado pelo frio, ferido pela indiferença dela, desgastado pelo vento e pela chuva, faminto e triste, sentindo-se cada vez mais só...
Na nonagésima nona noite ele esperou mais uma vez por ela. E mais uma vez ela não apareceu. O camponês abanou a cabeça, sentou-se no passeio e chorou durante muito tempo. Tanto tempo que a noite passou e o dia começou a nascer.
Tantas horas de espera, tantos sonhos no seu coração, tanto amor para dar e afinal nada valera a pena. A rapariga continuava a ignorá-lo, a fazer troça do seu amor. Sentado no passeio, chorou e viu as suas lagrimas formarem um fio de água que ia ter ao rio, e este ai ter ao mar. Viu o seu amor diluir-se, sentiu que a sua paixão não era nada, comparada com outras paixões que moveram mundos, povos e montanhas. Era só mais um fio de água que corria para se juntar ao mar.
Foi então que o camponês percebeu. Percebeu que não era ele que não era digno do amor dela, ela é que não merecia o amor dele. Que tudo o que ele amava naquela rapariga era uma ilusão, não existia. Que o seu esforço só lhe tinha servido para aprender a conhecer-se e a aceitar-se melhor a si próprio. Era um homem livre.
E no dia seguinte, quando ela abriu a porta para se entregar a ele, rendida por tanto amor e paixão, ele tinha-se ido embora.

sexta-feira, 28 de março de 2008

DIAS OFF

Há dias em que me sinto vazia, como se um cansaço imenso e letárgico se tivesse instalado sem pré-aviso e me tolhesse o coração e o espírito. São dias em que acordar é pior do que ter um pesadelo e levantar-me da cama me parece mais difícil do que atravessar o Atlântico a nado. Manhãs submersas em recordações e saudades, a sonhar calada tudo o que quis e nunca tive, mais o que já mereço mas ainda não alcancei. Nesses dias, em que há sempre pouco sol mas a chuva ainda não desceu à terra para a lavar e a sacudir, só me apetece ficar quieta e esquecer o mundo, na esperança que o mundo, por um dia, também se esqueça que existo. Gosto da sensação de me subtrair e desaparecer magicamente, partir sem deixar rasto, esconder-me de todos e de mim própria para ver se me encontro.
Nesses dias de recolhimento e segredo passo a minha vida em revista, olho para trás e vejo tudo como num filme, saboreio os melhores momentos pela memória fresca das boas recordações e salto com a maior rapidez que posso os maus, esperando que um dia os consiga esquecer de vez.
É nestes dias que me vem à memória o cheiro a bafio das casas de verão, o arrepio na espinha quando subia as escadas da camarata na casa da quinta dos meus avós e imaginava ratazanas gigantes a dançar no soalho incerto e ruidoso onde se apoiavam meia duzia de camas de ferro que há muito não viam uma lata de tinta. Ou o vento fresco das madrugadas solitárias a caminho do choupal, sozinha a cantarolar, carregando canas e cordas para, bem no centro do arvoredo conversador e aconchegante constrir a minha primeira cabana, o meu primeiro e mais delicioso refúgio, onde o canavial se cruzava em paredes que se levantavam por meio de cordas e o tecto era forrado a sacos de adubo abertos ao meio que pareciam uma bateria furiosa quando as chuvas de Outono apareciam de repente, deixando-me ainda mais isolada, no meio do verde, da agua e dos meus sonhos de menina pequenina que ainda não cresceu. E o nariz exala ainda o cheiro da agua corrente no tanque onde os limos faziam o chão parecer um ringue de patinagem aquatica e do medo de mergulhar sem controlar a respiração. Ou dos passeios de bicicleta e daquela vontade incontrolável de passar o portão, quando era exactamente iso que não podiamos fazer. A vontade de explorar outros lugares, outros pomares e vinhas, outras hortas e jardins, de conhecer vizinhos misteriosos e entabular conversa com os caseiros das outras casas ou os habitantes da aldeia que passavam a pé, como quem nunca tem pressa, aos domingos, a caminho da igreja, lá em cima no largo, com o inevitável campanário e o inevitável padre míope e seráfico, desdobrado em homilias vagas e pouco convenientes, recordando os mortos e os casados, os baptizados e outros fiés consagrados a votos católicos, numa ladainha de nomes e apelidos entre Josés, Anacletos, Eufrázias, Santos, Gomes e Ferreiras.
Nos dias off, apetece-me que a minha casa se tranforme numa concha com um frigorifico cheio de iogurtes e uma estante com os melhores livros da minha vida. Nesses dias de esquecimento voluntário do mundo, desligo os telefones, penso que o que quer que aconteça não pode ser nem tão urgente nem tão importante que não possa esperar mais 24horas e rezo a um deus qualquer que me tire desta letargia solitária e imensa, onde me afogo para não desaparecer. Mas espero ainda um sinal do mundo, um livro ou um disco enviados pelo correio ou um ramo de alfazemas, que me aqueça o coração e me faça pensar que apesar de tudo ainda vale a pena estar viva.

terça-feira, 25 de março de 2008

AMORES IMPOSSIVEIS

Todas as pessoas na vida têm um amor impossivel. Um caso antigo mal resolvido, uma paixaão platónica nunca consumada, o primeiro namorado, a primeira rejeição. Todos o temos. É parte indissociável do nosso património afectivo. Pode ser tão insignificante como aquele rapaz do oitavo ano que se sentava na carteira ao lado, ou mais profundo como a paixão pelo melhor amigo do nosso irmão, a inclinação poética e inconfessada pelo namorado da irmã mais velha, ou um primo afastado que nos deu atenção quando já eramos gente mas ainda ninguem tinha reparado.Os amores impossiveis são encantadores. E o objecto desse amor, uma pesoa afinal tão igual a qualquer outra, cheia de defeitos e exigua em qualidades é, aos nossos olhos, um ser perfeito, iluminado por Deus, intocável e irresistivel.O nosso amor impossivel é sempre o mais giro, aquele que tem mais charme, os olhos mais azuis e o cabelo mais graciosamente ondulado, o mais perfeiro corpo e a melhor presença, o mais sensual e o mais bem educado. Também o vemos como um herói profissional que desempenha as suas funções melhor que ninguém. Ele é o neurologista mais credenciado, o engenheiro mais competente, o arquitecto mais premiado. A vestir, ele é o que demonstra mais subtileza e requinte. Usa botões de punho como ninguem, e tem sempre fatos irrepreensivelmente enfomados. E claro, usa um perfume, qual o segredo de alquimia, que só ele conhece ou que só nele provoca tão devastador efeito, o de nos fazer cair para o lado só de o sentirmos por perto. E quando fala, ai quando fala, tem o timbre inconfundivel de voz que nós tanto amamos, usa as palavras como só ele sabe e quando ri, então é como se o paraiso tivesse descido a terra e não existisse mais nada, porque tudo o que mais queremos está ali, naquela pessoa.Isto acontece nas raras vezes em que a sorte estve do nosso lado e nos juntou, porque a maior parte das vezes ele vive apenas na nossa memória. E quando fechamos os olhos para o recordar, ele caminha para nós com o passo firme e seguro de um grande senhor e diz-nos tudo aquilo que nós tanto gostariamos de ouvir e que provavelmente nunca lhe terá passada pela cabeça. Para nós, ele é o Principe encantado, ser perfeito e intocável que o nosso destino ou uma loura de cabelo escortanhado incompreensivelmente nos roubou.Outras vezes, ele é uma migo muito próximo, demasiado próximo porque lhe demos excessiva confiança e já caimos na asneira de o amarmos sem exigir nada em troca. É por causa dele que nos metemos horas a fio na cozinha a inventar pratos que com o juizo perfeito nunca nos arriscariamos a fazer. Por causa dele vamos á ginástica, usamos cremes para reafirmar a pele e fazemos tratamentos de cabelo dos quais só nós vemos o resultado. E ele entra e sai da nossa vida conforme lhe dá na gana e ás vezes, num arremesso de insensibilidade tão habitual num homem, relata todas as conquistas e desabafa as tampas que levou. E nós engolimos em seco, mas aguentamo-nos até ao fim e só quando a porta bate é que a tristeza e o desespero chegam para se vingarem da nossa estupida e inutil abnegação. São assim, os amores impossiveis. É impossivel viver sem eles e insuportavel vivê-los. Habituamo-nos a eles como uma chaga cujas cicatrizes nos hão-de dar, ao menos, uma medalha de heroismo. É claro que o nosso amor é impossivel porque sempre o foi. O que quer apenas dizer em bom português que nunca nos ligou o suficiente para nos sentirmos possiveis na vida dele. Mas em vez de nos desmotivar, esse quase desprezo que é um misto de complac~encia e egoismo, faz crescer em nós a vontade absurad e inesgotavel de lutar por ele. Só porque o orgulho e a teimosia nos conduzem cega e inultimente a desejar sempre o que não temos.Mas um dia a sorte pode mudar, Ele aluga a casa do lado ou vem trabalhar para a nossa empresa. E não há fome que não dê em fartura. Estamos com ele de manha, á tarde e a noite, cruzamo-nos no corredor, temos reuniões e pela primeira vez conversamos e olhamos com olhos de gente para o nosso idolo. E a pouco e pouco o pedestal vai baixando como um elevador do principio do século, lentamente e sem dor, até ao nivel da nossa esquecida lucidez.O encanto quebra-se a cada defeito que nos salta escandalosamente á vista. Enterrados os sonhos, pouco ou nada resta. Ás vezes, uma boa amizade e uma dose de riso que levamos para casa e que tomamos todos os dias por termos sido tão ingenuamente enganados por nós próprios durante tantos anos.

segunda-feira, 24 de março de 2008

VAI

Vai, apanha esse avião que te leva para o outro lado do mundo, esconde-te daqueles que te amam e fecha-te na tua concha o tempo que for necessário. Vai e não olhes para trás, não te arrependas daquilo que não fizeste, escolhe um canto no mundo onde ninguém te conheça e a lingua seja dificil para que não caias na tentação de comunicar.
Leva um punhado de livros e algumas músicas eternas, papel e envelopes para mandar missivas a quem te apetecer, ou então uma garrafa com uma rolha bem forte para poderes atirar ao mar os teus segredos e esperar que o destino se encarregue de conduzir o curso das águas a teu favor.
Parte para longe, dá a ti próprio um número indefinido de dias de solidão e recolhimento, fecha-te nas tuas dúvidas e nos teus medos, não os mostres ao mundo porque o mundo está sempre á espera dos teus fracassos para os expiar, lembra-te daqueles que sempre te amarão onde quer que estejas, resguarda-te de todos aqueles que só te querem bem quando estás bem e te esquecem quando desapareces, parte vazio e preparado para a travessia no deserto da tua alma cansada e triste e não olhes para trás.
Escolhe um destino exótico, onde o calor te entorpeça os membros e o sol te cegue o olhar, com água tépida e salgada que te retempere o corpo e o espirito. Dorme sossegado na areia, á sombra de uma palmeira, olha as crianças que brincam á beira-mar sem imaginarem a tristeza que os espera quando aprenderem que o amor quase nunca é feliz e raramente se sente ao mesmo tempo da mesma maneira.
Dorme muito, que o sono arruma o coração e sossega os afectos, acorda devagar e goza o sabor do sol na pele, depois lê um bom livro e mergulha na dor das histórias alheias até que a tua própria dor se desvaneça sob o véu da distância e da saudade.
Leva contigo ainda uma caixa de chocolates e outra de aspirinas, a primeira para comer sempre que te lembrares de mim e a segunda para o que der e vier. E ainda uma bússola par não te perderes no regresso e sbaeres como voltar a casa. Não lamemtes a tua tristeza, mergulha nela como um peixe na água, esgota-a em lágrimas e gritos, e depois deita-a fora quando já não te servir para nada e não for mais do que um peso morto e ultrapassado na tua consciência.
Vai, vai antes que seja tarde e não tenhas coragem de partir, não te despeças de mim que eu fico por cá a ver-te partir e a rezar a um deus qualquer que voltes inteiro, reencontrado e pacificado dos teus tormentos, pronto para voltar a ver na vida tudo o que ela tem de bom e que ainda não te deu. Vai com cuidado, não tenhas pressa em regressar, demora o tempo que for preciso, guarda na memória as minhas mãos abertas, o meu apoio incondicional, o meu desejo profundo e terno que encontres o teu caminha, mesmo que eu não faça parte dele, mesmo que nunca mais te veja e que a minha vida me dê outras rotas e destinos.
Vai meu amor, vai que o amor tem que ter asas para poder voar, tem que ter portos para se abrigar, tem que ter distãncia para se saborear, tem que sentir a ausência para se poder dar. Vai com cuidado nessa tua busca de ti mesmo e nunca te esqueças que podes voltar e que cá estarei á tua espera, não sei se para te amar, mas para te poder receber com o meu coração e a minha cabeça. E quando regressares, promete-me que me trazes um presente, feito de saudades e desejo que alimente este meu coração cansado mas nunca esquecido do teu cheiro e da tua cor.






LOVE U

domingo, 16 de março de 2008

ÁS VEZES

Ás vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, a dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Ás vezes é preciso respirar fundo e esperar que o tempo nos indique o momento certo para falar e então alinhar as ideias, usar a cabeça e esquecer o coração, dizer tudo o que se tem a dizer, não ter medo de ouvir não, não esquecer nenhuma ideia, nenhum pormenor, deixar tudo bem claro em cima da mesa para que não restem duvidas e não duvidar nunca daquilo que estamos a fazer.
E mesmo que a voz trema por dentro, há que fazê-la sair firme e serena, e mesmo que se oiça o coração a bater desordenadamente fora do peito é preciso domá-lo, acalmá-lo, ordenar-lhe que bata mais devagar e faça menos alarido, e esperar, esperar, esperar que ele obedeça, que se esqueça, apagar-lhe a memória, o desejo, a saudade, a vontade...
Ás vezes é preciso partir antes do tempo, dizer aquilo que mais se tem a dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma e prepará-la para um futuro incerto, acreditar que esse futuro é bom e afinal já está perto, apertar as mãos uma contra a outra e rezar a um deus qualquer que nos dê força e serenidade. Pensar que o tempo está a nosso favor, que a vontade de mudar é sempre mais forte, que o destino e as circunstâncias se encarregarão de atenuar a nossa dor e de transformar numa recordação ténue e fechada num passado sem retorno que teve o seu tempo e a sua época e que um dia também teve o seu fim.
Ás vezes mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará para sempre a duvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, mais leve, melhor.
Ás vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo abaixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguem que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo.
Ás vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nosso guias, a unica companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar.
Até se comformar e um dia então esquecer!


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Ás vezes a dor é tão grande que não medimos as consequências, fazemos loucuras, dizemos e pensamos em coisas que não fazem qualquer sentido. Por isso e por tudo mais, a ti te peço mil e uma desculpas. Já pode ser tarde, mas nunca é tarde para mudar, para voltar a acreditar! Acredito e vou mudar! Porque lá no fundo à a esperança, a esperança que tudo isto seja um sonho e que um dia vou acordar, ou não! Acorde ou não, eu vou estar sempre aqui, do teu lado, para o que der e vier, serei a tua cabeça, os teus braços, as tuas pernas, o teu coração... serei tudo o que precisares que eu seja!




FRIENDS 4EVER


LOVE U

sábado, 1 de dezembro de 2007

TRATADO DE PAIXÃO!

Não há nada melhor do que estar apaixonado. Nem pior! Primeiro estranha-se. Depois, entranha-se. A paixão dá para tudo. Para rir e chorar, fazer confidências, namorar ao luar a beber coca cola de lata e sentir-se mais feliz do que se se estivesse no quarto 611 do Hotel Ibis a beber vinho do porto. Estar apaixonado é um estado de graça e de desgraça. Tira o sono e dá speed. Rouba a fome e mata a sede. Perde-se a noção do tempo, espaço, até do ridículo. Ganha-se força, vontade, desejo e anos de vida. Estar apaixonado é investir uma fortuna que demorou anos a amealhar num negócio de alto risco. E ainda por cima fazê-lo conscientemente. Porque a paixão é melhor do que qualquer bebida, droga ou paraíso terrestre. Uma pessoa apaixonada vai onde quer porque passa de repente a desconhecer os seus limites. Vê-se, sem perceber bem como, a fazer coisas impensáveis como escrever um grafite no prédio em frente à casa do namorado, AMO-TE Ó NUNO ALMEIDA! O Nuno Almeida cora, mas adora. E suspira, suspira muito porque quem está apaixonado vive a suspirar. Mas a paixão também tem o seu reverso. Uma pessoa fica diminuída. Moída. Distraída. Torna as pessoas inteligentes em, seres simples, e os seres simples em criaturas acéfalas. Faz pessimamente à saúde. Provoca insónias, suores frios, falta de apetite, obsessão por chocolates, tonturas, olheiras, borbulhas. Faz subir a tensão e provoca taquicardia. Às vezes, até faz o cabelo ficar oleoso, mas só em casos de extrema gravidade. E há que, sofra muito. Quem se queixe por se sentir reduzido a nada, estafado com tanta adrenalina. quem chore por estar tão feliz. Quem alimente a ansiedade e telefone 50 vezes numa manhã para o seu mais que tudo, que por acaso está a apresentar novos métodos e técnicas de vendas na empresa depois de ter sido promovido. Assim ficam os apaixonados. Poéticos, extasiados, anestesiados, prostrados, ou para quem está de fora, aparvalhados. Estar apaixonado dá um trabalhão. Cansa e não dá descanso. Mata-se e esfola-se por um nada de nada. Estar apaixonado é como partir à procura de um tesouro, qual Indiana Jones, mas sem pistola nem chicote. Não só ficamos completamente desarmados como nos tornamos em seres indefesos. Ficamos à mercê do mundo e, pior ainda, de nós próprios. É preciso viver a paixão até ao fim, mesmo que seja amanhã, porque o que conta é o que se sente aqui e agora. A paixão faz-nos sentir prisioneiros e livres ao mesmo tempo. E não há melhor do que saber que se tem asas e preferir não voar, só para ficar no ninho e esperar que um dia um ovo choque e dele nasça o fruto da paixão.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

MÁGOA!

É uma palavra bonita, mágoa. Sabe a lágrimas, a noites de insónia, a manhãs de domingo solitárias e sem sentido. Tem cores pastel, muito tristes e desmaiadas, ou então violetas de viuvez, pretos baços de carpideira muda vencida pela resignação. Está para lá da tristeza, da saudade, do deseja de lutar pela que já se perdeu, da raiva de não ter o que mais se queria, da pena de ter deixado fugir um grande amor, por ser demasiado grande. Primeiro grita-se, barafusta-se, soluça-se em catadupos, fazem-se esperas, mandam-se flores e livros sublinhados, sente-se os solavancos e come-se sem mastigar, num torpar raivoso e revoltado. A vida vai mais depressa do que nós, passa-nos por cima e os dias comem-se uns aos outros. Só queremos que o tempo corra para nos apaziguar a dor e acalmar os papos nos olhos. Depois, é o pós-guerra, a rendição, a entrega das armas e as sentenças de um tribunal marcial interior, em que os juízes são a vida e o réu, o que fazemos dela. Limpam-se os destroços, enterram-se os mortos, tratam-se os feridos que são as nossas feridas, feitas de saudades, desencontros, palavras infelizes e atitudes insensatas, medos, frustrações e tudo o que não dissemos. Não há longe nem distância para a dor. A mágoa chega então, quando o cansaço já não nos deixa sentir mais nada. É silenciosa e matreira, instala-se sem darmos por ela, aloja-se no coração e começa a deixar aqui e ali, dentro de nós. A pouco e pouco sentimos que já não somos a mesma pessoa. O cansaço mata tudo. A raiva de não termos quem tanto amámos, a fúria de não sermos donos da nossa vontade, o orgulho de termos perdido quem mais queríamos. Quando a mágoa é enorme e sufoca, vegetamos em silencio para que ela não nos coma. Fingimos que está tudo bem, rimo-nos de nós próprios perante os outros e até mesmo perante o outro que vive dentro de nós. Tornamos-nos espectadores da nossa dor. Afastamos-nos de nós, do que somos, daquilo em que acreditamos. No fundo estamos a desistir. O mundo nunca pára! Nada pára! a vida foge, os dias atropelam-se, é preciso continuar a vive-los, mesmo com dor, mesmo com mágoa. Pelo menos a mágoa magoa, faz-nos sentir vivos. Arde no peito e no orgulho, mas pouco a pouco vai matando a dor.